A influência do clima na safra da uva de 2004
Caracterização do clima da safra da uva de 2004 na Serra Gaúcha
Os
elementos meteorológicos exercem grande influência
sobre o desenvolvimento, produção e qualidade
da uva da Serra Gaúcha. Essa influência ocorre
em todos os estádios fenológicos da videira, isto
é, desde o repouso vegetativo (inverno), brotação,
floração, frutificação (primavera),
maturação (verão), até a queda das
folhas (outono). Cada estádio fenológico necessita
de uma quantidade adequada de luz, água e calor para
que a videira possa se desenvolver e produzir uvas de qualidade.
Para avaliar o clima da safra de 2004, na Serra Gaúcha,
utilizou-se os dados meteorológicos e a normal climatológica
de Bento Gonçalves, RS, da estação localizada
na Embrapa Uva e Vinho. Esta estação esta na altitude
de 640m, entretanto a videira, nessa região, é
cultivada em altitudes que variam de 200m a 900m.
Os dados meteorológicos da safra de 2004 foram comparados
com a normal climatológica 1961/90 e com os da safra
1999, tida como uma das melhores safras dos últimos anos,
nos principais estádios fenológicos da videira,
descritos a seguir:
a) Brotação- as videiras brotam no final do inverno-início
da primavera à medida que ocorre aumento da temperatura.
As videiras de brotação precoce começaram
a brotar no início de setembro enquanto as tardias no
início de outubro. Nesta safra, em setembro, as temperaturas
média e mínima foram mais baixas e a temperatura
máxima mais alta do que a normal climatológica
(Fig. 1). Em outubro as temperaturas foram um pouco superiores
a normal climatológica. A precipitação
pluviométrica (Fig. 2) foi inferior em setembro e um
pouco superior em outubro quando comparada com a normal climatológica.
Essas condições propiciaram boas condições
para a brotação das videiras.

b) Floração-frutificação-
este subperíodo é um dos mais críticos
para a videira, pois define em grande parte, a quantidade de
uva a ser colhida na safra. Ele iniciou na metade de outubro
para as cultivares mais precoces e se estendeu até meados
de novembro para as cultivares mais tardias. Esse subperíodo
apresentou temperaturas média e máxima superiores
e mínima, em novembro, pouco inferior quando comparadas
com à normal climatológica. A precipitação
foi semelhante à normal climatológica da região.
Essas condições propiciaram boas condições
para a floração e frutificação da
videira.

c)
Maturação-colheita- este é o subperíodo
que mais define a qualidade de uma safra. No subperíodo
de maturação, dias ensolarados e com reduzida
precipitação são fundamentais para a obtenção
de uvas sadias e com equilibrada relação açúcar/acidez,
características essas essenciais para a obtenção
de vinhos de qualidade. A Fig 3 apresenta a insolação
ocorrida na safra de 2004. Constata-se que a insolação
foi pouco inferior em dezembro e bem superior em janeiro e fevereiro
quando comparada à normal climatológica, já
a precipitação foi bem superior em dezembro, bastante
inferior em janeiro e próximo a normal em fevereiro.
Entretanto, não somente a quantidade da precipitação
pluviométrica mas também a sua intensidade, distribuição
e o número de dias de chuva (Fig. 4) precisam ser analisados.
Constata-se que, nessa safra, no subperíodo de maturação,
o número de dias de chuva foi igual em dezembro e bem
inferior em janeiro e fevereiro quando comparado com à
normal climatológica para a região. Normalmente,
nessa região, a colheita inicia nos primeiros dias de
janeiro e se estende até o início de março,
entretanto nessa safra, a colheita iniciou em meados de janeiro,
para as cultivares precoces e se estendeu além de meados
de março, para as cultivares tardias. Isto pode ser explicado
principalmente pelas menores temperaturas que ocorreram nos
meses de dezembro a fevereiro. Outro fator que contribuiu muito
para a qualidade das uvas dessa safra foi a sanidade das uvas,
isto é, a baixa incidência das podridões
das uvas. De um modo geral as uvas dessa safra foram colhidas
não pelo estado sanitário mas sim em função
do grau de maturação das uvas, isto é,
as condições climáticas aliadas ao correto
manejo das videiras possibilitaram que as uvas atingissem a
maturação desejada.


Comparando-se
as condições climáticas da safra de 2004
com as de 1999 (Fig. 1 a 4), constata-se que nesta safra as
temperaturas máxima e média mensais foram superiores
de setembro a novembro e inferiores de dezembro a fevereiro,
enquanto a temperatura mínima média mensal foi
inferior em todo o período. A precipitação
pluviométrica foi inferior no mês de setembro,
superior de outubro a dezembro e semelhante em janeiro e fevereiro.
Já o número de dias de precipitação
foi inferior em setembro, igual em outubro, superior em novembro
e dezembro e inferior em janeiro e fevereiro. A insolação
foi superior em setembro, outubro, janeiro e fevereiro e inferior
em novembro e dezembro. Analisando-se somente os meses do período
de maturação das uvas da Serra Gaúcha (dezembro
a fevereiro), embora a precipitação pluviométrica
tenha sido superior em 2004, o número de dias de chuva
foi inferior e a insolação foi superior na safra
de 2004. Chuvas de maior intensidade intercaladas pela seqüência
de dias ensolarados são menos prejudiciais a qualidade
das uvas do que seqüência de alguns dias nublados
e/ou de menor volume de precipitação.
Pode-se concluir que as condições climáticas
do período de maturação das uvas da safra
de 2004 foram excelentes, sendo superiores as da safra de 1999
para as cultivares de maturação tardia, o que
permite inferir que os vinhos, de um modo geral, também
terão alta qualidade.
![]() |
Francisco
Mandelli Dr. Agrometeorologia e também é confrade da confraria do vinho de Bento Gonçalves. |
