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Comportamento meteorológico e a safra da uva de 2005 na Serra Gaúcha

Para o estudo do clima da safra de 2005, foram utilizados os dados meteorológicos e as normais climatológicas da estação da Embrapa Uva e Vinho (Fig. 1). Essa estação localiza-se na altitude de 640 m e tem sido utilizada para caracterizar o comportamento da videira da Serra Gaúcha, embora a videira, nessa região, seja cultivada em altitudes que variam de 200 m a 900 m.
Os dados meteorológicos da safra 2005 foram comparados com a normal climatológica 1961/1990, nos principais estádios fenológicos da videira, descritos a seguir:

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a) Repouso vegetativo – as baixas temperaturas que ocorrem em junho, julho e agosto são fundamentais para a videira, pois, quanto mais frio for esse subperíodo, melhor será o repouso e melhores serão as condições para a brotação da videira. No inverno de 2004, ocorreram seis geadas e o número de horas de frio inferior a 10ºC foi de 605 h. Esse somatório foi 53 horas inferior à média dos anos 1976/2003, mas foi suficiente para proporcionar boas condições para a brotação da videira.
b) Brotação – as videiras brotam no final do inverno-início da primavera, à medida que ocorre aumento da temperatura. As videiras de brotação precoce começaram a brotar no início de setembro enquanto as tardias no início de outubro. A temperatura média de setembro foram bem superior (2,3°C) e em outubro ela foi um pouco inferior (0,4°C) a normal climatológica. A precipitação pluviométrica foi muito próxima da normal, tanto em setembro como em outubro. Essas condições propiciaram boas condições para a brotação da videira.
c) Floração-Frutificação – esse subperíodo iniciou na metade de outubro, para as cultivares precoces, e se estendeu até meados de novembro, para as cultivares mais tardias. Este subperíodo apresentou temperaturas, em novembro, pouco inferiores, quando comparadas com a normal climatológica da região. A precipitação e a insolação apresentaram valores muito próximos à normal. Essas condições propiciaram boas condições para a floração e frutificação da videira.
d) Maturação-Colheita – constata-se, na Fig. 1, que as temperaturas foram mais elevadas e que a insolação foi superior de dezembro a março e a precipitação pluviométrica foi bem inferior, principalmente de dezembro a fevereiro, quando comparada à normal climatológica. É importante destacar que não somente a quantidade da precipitação, mas também a sua intensidade, distribuição e o número de dias de chuva devem ser considerados uma vez que chuvas de maior intensidade, intercaladas pela seqüência de dias ensolarados, são menos prejudiciais à qualidade das uvas do que seqüência de alguns dias nublados e/ou de menor volume de precipitação.
Verifica-se que o número de dias de precipitação (Fig. 2), no subperíodo de maturação, foi bem inferior na safra de 2005 quando comparado com a normal climatológica para a região.
A safra de 2005 se caracterizou pela forte estiagem que iniciou em meados de novembro e se estendeu durante todo o período de maturação, causando quebra de safra, especialmente naqueles vinhedos localizados em solos de pouca profundidade. Nesses locais, devido ao estresse hídrico, as videiras perderam as folhas, as bagas murcharam, sendo tal processo acelerado pela ação da radiação solar direta, obrigando a uma colheita antecipada.
Nos vinhedos localizados em solos mais profundos, nos quais foram adotadas as práticas culturais recomendadas, as videiras resistiram melhor à estiagem e se beneficiaram dela. A restrição hídrica no período de crescimento do fruto reduziu o tamanho da baga e por conseqüência o peso do cacho. A redução do tamanho da baga resultou também na obtenção de cachos menos compactos e, por isso, menos sujeitos ao ataque de podridões. Com isso foi possível realizar a colheita quando os frutos apresentavam casca, polpa e sementes em estágio ideal de maturação. A absorção de água pelas videiras com um nível de restrição maior que o normal produziu frutos mais concentrados em açúcares e em substâncias orgânicas e minerais.
Normalmente, a colheita inicia nos primeiros dias de janeiro e se estende até o início de março. Entretanto, nesta safra, a colheita iniciou em meados de janeiro, para as cultivares precoces, e se estendeu até o final de março, para as cultivares tardias. De um modo geral, as uvas desta safra foram colhidas não em função do estado sanitário, mas sim pelo grau de maturação das uvas. Assim, as condições climáticas, aliadas ao correto manejo das videiras, possibilitaram que as uvas permanecessem por mais tempo no vinhedo e atingissem a maturação desejada.
Nesta safra, as uvas de maturação precoce, como Chardonnay, Gewürztraminer e Pinot Noir, começaram a ser colhidas em meados de janeiro, estendendo-se a colheita até meados de fevereiro. Durante esse período, a insolação foi superior e a precipitação inferior à normal climatológica, resultando em uma evolução da maturação bem superior às condições médias observadas na região.
As uvas de maturação intermediária, como Riesling Itálico e Merlot, com colheita que se estendeu desde o final de janeiro até o final de fevereiro, também tiveram condições meteorológicas excelentes, quando comparadas a normal climatológica.
As uvas de maturação tardia, como Cabernet Sauvignon, foram colhidas desde o final de fevereiro até o final de março. Essas cultivares tiveram condições meteorológicas um pouco inferiores às anteriores, embora com uma insolação bem superior, a precipitação foi igual a normal climatológica da região (128 mm). É importante registrar que as chuvas de março 2005 ocorreram a partir do dia 13 e em função disso, as uvas tardias colhidas antes desta data também tiveram condições meteorológicas bem superiores às condições médias observadas na região.
Durante os meses de dezembro/2004 a março/2005, a insolação acumulada foi de 989 h, enquanto a normal para a região é de 876 h. Para este mesmo período a precipitação pluviométrica foi de 286 mm e 551 mm, respectivamente.

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Resumindo-se, as condições meteorológicas da vindima de 2005 foram excepcionais para as uvas precoces e intermediárias e muito boas (bem acima da média) para as uvas tardias. Além da maior quantidade de horas de brilho solar, menor precipitação pluviométrica e menor número de dias de chuva o subperíodo de maturação da safra de 2005, quando comparado com a normal climatológica, se caracterizou pela sanidade das uvas e pela estiagem (restrição hídrica) que teve como conseqüência a redução do tamanho da baga (maior relação casca/polpa) e do peso médio do cacho. As condições climáticas permitiram o prolongamento da maturação das uvas o que possibilitou às bagas sintetizar e acumular mais açúcares, pigmentos, taninos, substâncias aromáticas e seus precursores.
Em função do clima, aliado as adequadas técnicas de cultivo e ao elevado grau de sanidade e de maturação obtidos pelas uvas desta safra, tudo indica que serão elaborados excelentes vinhos e que a safra de 2005 será lembrada como uma das melhores safras da Serra Gaúcha.

mandeli.jpg Francisco Mandelli
Dr. Agrometeorologia e também é confrade da confraria do vinho de Bento Gonçalves.