Comportamento meteorológico e a safra da uva de 2006 na Serra Gaúcha
Para o estudo do clima da safra de 2006, foram utilizados os dados meteorológicos e as normais climatológicas da estação da Embrapa Uva e Vinho, Bento Gonçalves, RS (Fig. 1). Essa estação localiza-se na altitude de 640 m e tem sido utilizada para caracterizar o comportamento da videira da Serra Gaúcha, embora a videira seja cultivada, nessa região, em distintos topoclimas e altitudes que variam de 200 m a 900 m.Os dados meteorológicos da safra 2006 foram comparados com a normal climatológica 1961/1990, nos principais estádios fenológicos da videira, descritos a seguir:
a)
Repouso vegetativo – as baixas temperaturas que
ocorrem em junho, julho e agosto são fundamentais para
a videira, pois, quanto mais frio for esse subperíodo,
melhor será o repouso e melhores serão as condições
para a brotação da videira. No inverno de 2005,
ocorreram cinco geadas e o número de horas de frio inferior
a 10ºC foi de 555 h. Esse somatório foi 101 horas
inferior à média dos anos 1976/2004. O mês
de junho apresentou temperatura média do ar mais alta,
julho dentro da normalidade, agosto com temperatura mais alta
e setembro com temperatura mais baixa que a normal climatológica
para a região de Bento Gonçalves.
b) Brotação – as videiras
brotam no final do inverno-início da primavera, à
medida que ocorre aumento da temperatura. As videiras de brotação
precoce começaram a brotar no início de setembro
enquanto as tardias iniciaram a brotação no início
de outubro. A temperatura média de setembro foi bem inferior
(2,1°C) e em outubro ela foi um pouco inferior (0,2°C)
à normal climatológica. A precipitação
pluviométrica foi próxima a normal em setembro
e muito superior em outubro. A menor quantidade de horas de
frio aliada a alternância de mês quente/mês
frio causou problemas para a brotação da videira,
principalmente nas cultivares de brotação precoce,
como a Chardonnay.
c) Floração-Frutificação
– esse subperíodo iniciou na metade de
outubro, para as cultivares precoces, e se estendeu até
meados de novembro, para as cultivares mais tardias. Este subperíodo
apresentou temperaturas, em novembro, pouco superiores, quando
comparadas com à normal climatológica da região.
As condições de chuva/umidade elevada e a ocorrência
de dias encobertos, principalmente em outubro, interferiram
no desenvolvimento da videira causando problemas na floração
e no pegamento dos frutos. Nesse período já se
podia constatar, para muitas cultivares, que a produtividade
dessa safra seria menor que o normal, principalmente em decorrência
das condições climáticas do inverno (problemas
com a brotação) e de primavera (problemas com
a floração/pegamento do fruto), além dos
originados pela forte estiagem ocorrida no verão passado.
Soma-se a isso o granizo que, embora localizado, também
contribuiu para a quebra de safra em diversas localidades da
região.

Comportamento meteorológico (temperatura máxima, média e mínima do ar, precipitação pluviométrica e insolação) na safra de uva de 2006 em relação a normal climatologia (1961/1990) Bento Gonçalves - RS.
d)
Maturação da colheita – constata-se,
na Fig. 1, que as temperaturas foram mais elevadas em janeiro
e março e inferiores em dezembro e fevereiro ao passo
que a insolação foi superior em dezembro e fevereiro
e inferior em janeiro e março, quando comparadas a normal
climatológica. Nesse período a precipitação
pluviométrica foi bem inferior, principalmente em dezembro
e fevereiro, e um pouco superior em março. É importante
destacar que não somente a quantidade da precipitação,
mas também a sua intensidade, distribuição
e o número de dias de chuva devem ser considerados uma
vez que chuvas de maior intensidade, intercaladas pela seqüência
de dias ensolarados, são menos prejudiciais à
qualidade das uvas do que seqüência de alguns dias
nublados e/ou de menor volume de precipitação.
Verifica-se que o número de dias de precipitação
(Fig. 2), no subperíodo de maturação, foi
bem inferior na safra de 2005 quando comparado com a normal
climatológica para a região.
Verifica-se que o número de dias de precipitação (Fig. 2), no subperíodo de maturação, foi superior somente em janeiro quando comparado com a normal climatológica para a região.

A safra de 2006 se caracterizou pela menor quantidade de precipitação que iniciou em meados de novembro e se estendeu quase até o final de março, portanto abrangendo grande parte do período de maturação das uvas da Serra Gaúcha, o qual ocasionou quebra de safra, especialmente naqueles vinhedos localizados em solos de pouca profundidade.
Nos vinhedos localizados em solos mais profundos, nos quais foram adotadas as práticas culturais recomendadas, as videiras resistiram melhor a restrição hídrica e se beneficiaram dela.
Normalmente,
a colheita inicia nos primeiros dias de janeiro e se estende
até o início de março. Entretanto, nesta
safra, a colheita iniciou em meados de janeiro, para as cultivares
precoces, e se estendeu até o início de abril,
para as cultivares tardias.
Nesta safra, as uvas de maturação precoce, como
Chardonnay e Pinot Noir, começaram a ser colhidas em
meados de janeiro, estendendo-se a colheita até o início
de fevereiro. Durante esse período, a insolação
foi superior e a precipitação inferior, embora
o número de dias de precipitação tenha
sido superior, à normal climatológica.
As uvas de maturação intermediária, como Riesling Itálico e Merlot, com colheita que se estendeu desde o início até o final de fevereiro, tiveram melhores condições meteorológicas, quando comparadas à normal climatológica da região.
As uvas de maturação tardia, como Cabernet Sauvignon, foram colhidas desde o final de fevereiro até o início de abril. Essas cultivares também tiveram condições meteorológicas muito boas embora o volume de precipitação pluviométrica tenha sido um pouco superior a normal climatológica da região. É importante registrar que as chuvas de março 2006 ocorreram a partir do segundo decêndio e em função disso, as uvas tardias colhidas antes desta data também tiveram condições meteorológicas bem superiores às condições médias observadas na região.
Durante os meses de dezembro/2005 a março/2006, a insolação
acumulada foi de 916 h, enquanto a normal para a região
é de 876 h. Para este mesmo período a precipitação
pluviométrica foi de 402 mm e 551 mm, respectivamente.
Em resumo, embora as condições meteorológicas
da vindima de 2006 foram melhores, tanto para as uvas de maturação
precoce, intermediária, quanto para as tardias, quando
comparadas à normal climatológica para a região,
constatou-se a incidência de podridões do cacho,
principalmente da podridão da uva madura (Glomerella
cingulata), tanto nas cultivares de película branca como
nas tintas. Essas podridões diminuem a qualidade das
uvas, pois obrigam o viticultor a antecipar a colheita e/ou
fazer repasses, quando as uvas ainda não haviam, suficientemente
sintetizado e acumulado, açúcares, pigmentos,
taninos, substâncias aromáticas e seus precursores,
componentes esses essenciais para a qualidade do vinho.
Os viticultores da Serra Gaúcha que controlaram a podridão
da uva madura obtiveram uvas de boa qualidade para a elaboração
de vinhos ou de espumantes.
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Francisco
Mandelli Dr. Agrometeorologia e também é confrade da confraria do vinho de Bento Gonçalves. |
