2º Simpósio em Ciência de Alimentos - Composição do Vinho e Saúde
INTRODUÇÃOO vinho é uma bebida obtida exclusivamente a partir da fermentação alcoólica do mosto da uva. Apresenta grande complexidade química devido à natureza dos constituintes. O hábito do consumo moderado de vinho é benéfico à saúde do consumidor, e participa da dieta da população de muitos países. É considerado uma bebida símbolo para numerosas culturas, compatível com a vida familiar, com a alegria de viver e de um modo de vida equilibrado. Entre os efeitos favoráveis, quando consumido moderadamente destaca-se o efeito protetor contra os problemas cardiovasculares; a capacidade de favorecer a formação em maior quantidade do bom colesterol (HDL); o efeito para combater os radicais livres; o efeito antimicrobiano, antiviral, diurético e eupéptico.
PRINCIPAIS COMPONENTES DO VINHO
Álcoois
O álcool etílico é, depois da água,
o componente do vinho presente em maior quantidade, participa
com 10 a 13% do volume ou com 80 a 104 g/L, do peso, no vinho
de mesa. É formado na fermentação alcoólica
dos açúcares do mosto, pela ação
da levedura (Saccharomyces cerevisiae). Além de contribuir
na qualidade, o álcool etílico participa do valor
comercial e de aspectos farmacológicos e também
dos eventuais casos de alcoolismo atribuídos ao vinho.
No entanto, um consumo moderado, o equivalente a 20-30 g de
etanol/dia ou 250-300 mL de vinho e desde que as calorias provenientes
do álcool não ultrapassem a 10% da necessidades
diárias, contribui com o bem-estar das pessoas e na redução
dos índices de mortalidade por doenças cardiovasculares.
2º Simpósio em Ciência de Alimentos –
SIMPOCAL O álcool não é um alimento plástico
indispensável como as proteínas, os aminoácidos,
as vitaminas, mas pode contribuir, de sua maneira, no equilíbrio
energético do indivíduo.
Além do etanol estão presentes no vinho um conjunto
de componentes voláteis ou aromáticos, pertencentes
aos mais diversos grupos químicos, que correspondem aproximadamente
a 1% do peso do álcool, isto é, de 1,0 a 1,5 g/L
em peso. Esses componentes, embora pouco representativos quanto
ao peso, representam um número elevado de constituintes,
com participação importante nas características
organolépticas do vinho.
Ácidos orgânicos
O
vinho contém determinados ácidos orgânicos
presentes na forma livre ou salificada, entre os quais destacam-se
o tartárico, o málico, o cítrico e o lático.
O ácido tartárico é o ácido característico
do vinho, sendo que a videira é a única planta
na natureza que o produz em quantidade elevada, possibilitando
a
extração comercial.
Esses ácidos determinam no vinho um pH, variável
de 3,0 a 3,8 que lhe confere um efeito anti-séptico e
um poder eupéptico. Isto é, o vinho favorece a
ação da pepsina, que no suco gástrico apresenta
atividade ótima a pH 2,0. Por esta razão auxilia
na hidrólise das proteínas, aumentando a capacidade
digestiva.
Minerais
Os
elementos minerais do vinho constituem as cinzas e representam
em média 2,0 g/L e aproximadamente 10% do teor do extrato
seco reduzido. O potássio é o cátion mais
importante do vinho e participa com até 50% do valor
das cinzas. Os sais de potássio contribuem na propriedade
diurética dos vinhos. Os vinhos brancos, geralmente,
são mais diuréticos que os tintos, devido ao baixo
teor de taninos que possuem. Por ser um cátion fisiologicamente
muito ativo exerce papel fundamental no interior da célula
viva, mantendo o ambiente alcalino. A relação
potássio/sódio elevada do vinho é importante
sob o aspecto fisiológico. O cálcio e o magnésio
também estão presentes no vinho em 1 Eng. agrôn.,
Pesquisador, Embrapa Uva e Vinho, Caixa Postal 130, 95700-000
Bento 2º Simpósio em Ciência de Alimentos
– SIMPOCAL quantidades elevadas.
O ferro, embora presente no vinho em pequena quantidade, 3,0-4,0
mg/L é um elemento benéfico à saúde.
Encontra-se no vinho na forma de ferro ferroso, mais facilmente
assimilável. O vinho possui também pequena quantidade
de lítio, ao qual é atribuído um efeito
antidepressivo. Além desses elementos minerais encontram-se
no vinho na forma de ânions os sulfatos, fosfatos e cloretos.
Aminoácidos
No
vinho encontram-se os 24 aminoácidos principais, em proporções
semelhantes à do sangue humano. Alguns desses aminoácidos
possuem ações específicas suplementares,
como estimulantes do apetite, ativadores do sistema nervoso
e utilização adequada da vitamina C. O aminoácido
predominante do
vinho é a prolina, mas são encontrados em quantidades
consideráveis a alanina, o ácido glutâmico
e o ácido aspártico.
Aminas
Um
certo número de aminas estão presentes no vinho
em pequena quantidade, geralmente, menos de 5,0 mg/L. Entre
elas, a histamina está relacionada com vinhos elaborados
em condições microbiológicas inadequadas.
A presença de serotonina constatada recentemente apresenta
efeito farmacológico favorável.
Vitaminas
O
vinho não apresenta, de modo geral, teor elevado de vitaminas.
Não estão presentes as vitaminas lipossolúveis:
A; D; E e K. Entre as vitaminas hidrossolúveis, encontram-se
no vinho aquelas do complexo B, colina, ácido fólico
e mesoinositol. Devido à deficiência em vitaminas
lipossolúveis o vinho não é considerado
um alimento base, no entanto, em relação ao mesoinositol
apresenta teor próximo à necessidade diária.
Ácidos
fenóis
São
compostos fenólicos simples, se encontram na uva na forma
de combinação tipo éster e são liberados
por hidrólise alcalina. São divididos em dois
grupos: os ácidos benzóicos e os ácidos
cinâmicos.
Os ácidos benzóicos – p-hidroxibenzóico,
protocatéico, vanílico, gálico e siríngico
são os mais difundidos e se caracterizam por apresentar,
juntamente com as antocianinas do vinho, efeito anti-séptico.
O ácido benzóico é utilizado como aditivo
conservador em suco de uva, devido a efeito anti-séptico
que apresenta.
Os ácidos cinâmicos – p-cumárico, caféico
e ferúlico, são encontrados no vinho na forma
livre e salificada e participam da estrutura oxidorredutiva
e apresentam também efeito anti-séptico. Além
desses ácidos fenólicos foram encontrados também
na uva os ácidos salicílico e gentísico.
Procianidinas
As
procianidinas correspondem à condensação
de duas a cinco unidades de flavanóis (catequinas). No
vinho, as procianidinas provêm da uva e são encontradas
em quantidade elevada nas sementes. Os vinhos tintos apresentam
concentrações maiores de procianidinas em relação
aos vinhos brancos devido à maior participação
da película e da semente por ocasião da elaboração.
As sementes da uva permitem a extração em maior
quantidade das procianidinas, até mesmo para fins de
pesquisa e atender às necessidades da indústria
farmacêutica.
É atribuída às procianidinas da uva uma
maior resistência dos vasos sangüíneos e interferindo
nos casos de hemorragia e conseqüentemente nos efeitos
positivos do vinho sobre os problema cardiovasculares.
Tanino
Os
taninos do vinho são compostos fenólicos formados
a partir da polimerização de moléculas
básicas de flavanol-3 (catequinas) e de flavanediol-
3,4 (leucoantocianidinas), e são designados taninos condensados.
Os taninos comerciais disponíveis, obtidos de outras
plantas – carvalho, quebracho, acácia, são
designados de taninos hidrolizáveis ou pirogálicos
e por hidrólise liberam moléculas de ácido
gálico.
Os taninos se caracterizam pela propriedade de se combinar com
as proteínas; utilizado na prática da curtição
do couro, tornando-o imputrescível e pouco permeável.
A sensação de adstringência que causa é
devido à perda da propriedade lubrificante da saliva,
devido à precipitação pelo tanino, das
proteínas
e glicoproteínas encontradas na mesma.
A atividade antiviral do vinho está relacionada com os
taninos polimerizados, presentes em maior quantidade nos vinhos
envelhecidos. Além disso, o tanino do vinho favorece
a digestão, pois age sobre a musculatura do
estômago favorecendo as contrações. Nesse
sentido, a originalidade do vinho consiste em permitir absorver,
de modo agradável uma quantidade elevada de polifenóis,
especialmente taninos, que em outro alimento seriam excessivamente
adstringentes.
Antocianinas
As
antocianinas são pigmentos vermelhos em meio ácido
que passam para o azul em meio alcalino ou quando se complexão
com certos cátions, estão muito difundidas na
natureza fazendo parte da coloração das flores
e dos frutos. Elas são as responsáveis pela coloração
vermelha dos vinhos tintos jovens. As principais antocianidinas
presentes no vinho são a cianidina, delfinidina, petunidina,
malvidina e peonidina.
A malvidina (como 3-glicosideo) é a principal antocianina
encontrada nos vinhos tintos de Vitis vinifera foi indicada
por apresentar inibição ao crescimento de bactérias
patogênicas. Nesse sentido, os vinhos novos apresentam
essa atividade antibacteriana mais elevada em relação
aos vinhos mais velhos, pois possuem maior quantidade de antocianinas
livres.
Flavonóis
Os
flavonóis são compostos fenólicos, pigmentos
amarelos, presentes na película da uva tinta, na forma
de monoglicosídeos de kaempferol, da quercetina 2º
Simpósio em Ciência de Alimentos – SIMPOCAL
e da mirecetina. Estão presentes também nas películas
das uvas brancas, exceto a mirecetina.
Neste grupo de compostos fenólicos a mirecetina tem sido
estudada devido ao seu poder antioxidante, mais elevado mesmo
que a vitamina E, utilizada como referência. Portanto,
esse composto fenólico apresenta um efeito protetor em
relação aos radicais livres.
Estilbenos
Neste
grupo de compostos fenólicos encontra-se o resveratrol,
que é uma fitoalexina, isto é, um componente sintetizado
pela videira em resposta a uma situação de stress,
como o ataque de patógenos. O resveratrol tem sido muito
estudado devido à sua interação com as
doenças da videira e devido ao efeito protetor das doenças
cardiovasculares. O resveratrol é utilizado na medicina
chinesa no controle de determinadas doenças.
Na uva, o resveratrol encontra-se na película, e o vinho
tinto apresenta maior quantidade, devido ao processo de elaboração.
A concentração de resveratrol no vinho varia de
1,3 a 7,0 mg/L.
REFERÊNCIAS
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Bulletin de l’O.I.V., Paris, v. 74, n. 839-840, p. 54-60,
2001.
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Dr. Luiz Antenor Rizzon PhD em Enologia pela Universidade de Bordeaux, França é pesquisador da Embrapa Uva e Vinho; também é confrade da Confraria do vinho de Bento Gonçalves. |
