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Comportamento meteorológico e a safra da uva de 2007 na Serra Gaúcha

Comportamento meteorológico e a safra da uva de 2007 na Serra Gaúcha

 

Para o estudo do clima da safra de 2007, foram utilizados os dados meteorológicos e as normais climatológicas da estação da Embrapa Uva e Vinho, Bento Gonçalves, RS (Fig. 1). Essa estação localiza-se na altitude de 640 m e tem sido utilizada para caracterizar o comportamento da videira da Serra Gaúcha, embora a videira seja cultivada, nessa região, em distintos topoclimas e altitudes que variam de 200 m a 900 m.

Os dados meteorológicos da safra 2007 foram comparados com a normal climatológica 1961/1990, nos principais estádios fenológicos da videira, descritos a seguir:

a)      Repouso vegetativo –  as baixas temperaturas que ocorrem em junho, julho e agosto são fundamentais para a videira, pois, quanto mais frio for esse subperíodo, melhor será o repouso e melhores serão as condições para a brotação da videira. No inverno de 2006, ocorreram nove geadas e o número de horas de frio inferior a 10ºC foi de 491h. Esse somatório foi 165 horas inferior à média dos anos 1976/2005. Os meses de junho a agosto apresentaram temperaturas médias do ar mais altas que a normal climatológica para a região de Bento Gonçalves.

b)       Brotação – as videiras brotam no final do inverno-início da primavera, à medida que ocorre aumento da temperatura. As videiras de brotação precoce começaram a brotar no final de agosto-início de setembro devido as temperaturas de inverno mais elevadas enquanto as tardias iniciaram a brotação no final de setembro-início de outubro. As geadas ocorridas na primeira dezena de setembro causaram danos graves nas videiras de brotação precoce, como a Chardonnay e a Pinot Noir, ocasionando perdas totais da produção nos vinhedos mais expostos às geadas e perdas significativas nos vinhedos mais protegidos. A temperatura média de setembro foi um pouco inferior (0,6°C) e em outubro ela foi bem superior (1,7°C) à normal climatológica. A precipitação pluviométrica foi inferior à normal em setembro e muito inferior em outubro. A menor quantidade de horas de frio, as geadas do início de setembro e a alternância de mês quente/mês frio foi muito prejudicial às videiras de brotação precoce e em algumas regiões também para as cultivares de brotação intermediárias. A brotação foi normal para as cultivares tardias.

c)       Floração-Frutificação – esse subperíodo iniciou na metade de outubro, para as cultivares precoces, e se estendeu até meados de novembro, para as cultivares mais tardias. Este subperíodo apresentou temperaturas, em novembro, pouco inferiores, quando comparadas com à normal climatológica da região, entretanto isso não interferiu para as cultivares que não sofreram danos pelas geadas na brotação tivessem uma boa floração-frutificação.     

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Fig.1. Comportamento meteorológico (temperatura máxima, média e mínima do ar, precipitação pluviométrica e insolação) na safra da uva de 2007 em relação a normal climatológica (1961/1990). Bento Gonçalves, RS.



Fonte:Embrapa Uva e Vinho


d)      Maturação-Colheita – constata-se, na Fig. 1, que as temperaturas foram mais elevadas de dezembro a março e que a insolação foi superior em dezembro e fevereiro e inferior em janeiro e março, quando comparadas à normal climatológica. Nesse período a precipitação pluviométrica foi bem inferior em dezembro, próximo a normal em janeiro e fevereiro e bem superior em março. É importante destacar que não somente a quantidade da precipitação, mas também a sua intensidade, distribuição e o número de dias de chuva devem ser considerados uma vez que chuvas de maior intensidade, intercaladas pela seqüência de dias ensolarados, são menos prejudiciais à qualidade das uvas do que seqüência de alguns dias nublados e/ou de menor volume de precipitação.
Verifica-se que o número de dias de precipitação (Fig. 2), no subperíodo de maturação, foi superior em janeiro e março quando comparado com à normal climatológica para a região.

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Fig. 2. Número de dias de chuva na safra de 2007 em relação a normal climatológica (1961/1990). Bento Gonçalves, RS.

Fonte: Embrapa Uva e Vinho.

 

 


A safra de 2007 se caracterizou pelas geadas (do final de agosto ao início de setembro) que ocasionaram grandes perdas da produção nas cultivares precoces e pela menor quantidade de precipitação, que se estendeu de agosto até janeiro, embora novembro tenha apresentado precipitação dentro da normalidade.

Normalmente, a colheita inicia nos primeiros dias de janeiro e se estende até o final de março. Entretanto, nesta safra, a colheita iniciou no final de dezembro, para as cultivares precoces, e se estendeu até o final de março, para as cultivares tardias.

Nesta safra, as uvas de maturação precoce, como Chardonnay e Pinot Noir, começaram a ser colhidas no final de dezembro, estendendo-se a colheita até meados de janeiro. Durante esse período as condições meteorológicas para a maturação das uvas foram boas pois a insolação foi superior e a precipitação inferior à normal climatológica.

As uvas de maturação intermediária, como Riesling Itálico e Merlot, com colheita que se estendeu desde meados de janeiro a meados de fevereiro também tiveram condições meteorológicas muito boas, quando comparadas à normal climatológica da região.

As uvas de maturação tardia, como Cabernet Sauvignon, foram colhidas desde o final de fevereiro até o final de março. Essas cultivares tiveram condições meteorológicas inferiores às anteriores uma vez que a precipitação foi um pouco superior e a insolação um pouco inferior em comparação com as condições normais para a região.

Em resumo, as condições meteorológicas da safra 2007 foram mais adequadas para a maturação das uvas precoces e intermediárias do que para as tardias. A expectativa dessa safra é para a obtenção de vinhos brancos frutados, tintos jovens e espumantes de excelente qualidade.

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Francisco Mandelli
Dr. Agrometeorologia e também é confrade da confraria do vinho de Bento Gonçalves.