Artigo

Vinho para alcoólatras na Rússia

 

O alcoolismo é uma doença complexa e incurável. Por isso preocupa os agentes de saúde há tanto tempo.

Os alcoólatras podem ter longos períodos de remissão e até morrer de outra causa, mas nunca se livram desse problema.  Terão sempre que se manter vigilantes e em tratamento.

O alcoolismo é um mal incurável por ser complexo. “Não se torna alcoólatra quem quer” já advertia E. Régis in Manual Pratique de Medicine Mentale, Doin, Paris, 1982. Menos de um terço dos bebedores habituais se tornam alcoólatras. Portanto não se pode atribuir apenas ao consumo abusivo de álcool a causa deste mal. Ela implica em vários aspectos. Para ser um bebedor problema, além da ingesta regular e abusiva de etanol concorrem outros importantes fatores como os genéticos, sociais, familiares, biológicos e psicológicos. O indivíduo, para se tornar alcoólatra, necessita ter uma predisposição genética que deve ser ativada por fatores ambientais.

            A Rússia, há vários séculos, tem sérias preocupações com o alcoolismo, que lá é quase que exclusivamente pelo consumo abusivo de vodka. São tidos como fortes indutores desse consumo alto as seguidas lutas revolucionárias, três guerras sucessivas e o hábito centenário dos russos de produzir e beber muita vodka em eventos sociais e familiares. Antes da I Guerra Mundial, um terço de todo o dispêndio do governo russo era coberto com o que arrecadava das empresas que produziam vodka. É necessário lembrar que, além da produção clandestina, a produção familiar não era tributada. Na Rússia, após a II Guerra Mundial, as internações psiquiátricas por alcoolismo quadruplicaram. Isso nos dá uma idéia da dimensão do problema (produção da bebida e doença crônica incurável).

            Entre os anos de 1935 e 1937 o consumo anual per capita de vodka na Rússia era de 3,90 L e o de vinho 0,98 L. Neste período o consumo anual de álcool puro per capita era de 2,80 L, o equivalente a 2.240 g de álcool por pessoa por ano. O governo russo, que tinha o controle centralizado das informações de saúde e dos serviços de educação e propaganda, resolveu adotar algumas medidas para reduzir a magnitude desse problema de saúde, social e financeiro. Ele fez campanhas educacionais, restringiu a comercialização de vodka em locais públicos (o que foi difícil de acontecer e controlar), aumentou o preço do litro da vodka de 2,50 para 4,00 rublos e do vinho de 1,00 para 2,50 rublos. A intenção era inibir o consumo de vodka em detrimento do de vinho. Com isso a produção de vinho na Rússia aumentou de 1940 para 1960 em mais de 400% (de 190.695.000 L para 770.680.000 L). Com essas medidas o consumo anual per capita de vodka entre os anos 1948 e 1950 caiu para 2,80 L e o de vinho aumentou para 1,29L. Isso resultou numa redução de 34% do consumo per capita de álcool puro, que passou a ser de 1,85 L, o equivalente a 1.480 g de álcool per capita.

            As medidas adotadas pelo governo russo, que incluíram o incentivo do consumo de vinho em detrimento do de vodka, literalmente diminuíram o peso do alcoolismo na Rússia.

 

PARA SABER MAIS leia Wortis J. Am J Public Health Nations Health. 1963 Oct; 53(10): 1644-1655.