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Vinho para alcoólatras no Canadá Um novo triunfo de Bacco

O consumo abusivo de bebidas alcoólicas mata cerca de 1,8 milhões de pessoas por ano no mundo, conforme dados de 2004 da Organização Mundial da Saúde. Estima-se que 76,3 milhões de pessoas no nosso planeta apresentem problemas pelo excesso de álcool. Isso nos dá bem a dimensão do problema dessa doença crônica e incurável que é o alcoolismo. Os problemas relacionados ao consumo abusivo de álcool, embora menos expressivos que os causados pela Pressão Arterial alta, consumo de cigarros, colesterol elevado, desnutrição, sexo não seguro, baixo consumo de vegetais, obesidade, desnutrição e até mesmo o sedentarismo (todas situações clínicas mais fáceis de resolver), são relevantes e devem preocupar todos os que têm responsabilidade e preocupações sociais. Pesquisadores da Universidade de Ottawa fizeram um interessante estudo com alcoólatras que viviam nas ruas dessa cidade. Essas pessoas eram na maioria brancos (94%) e homens (88%). Tinham em média 51 anos de idade e 35 anos de alcoolismo. Sessenta e cinco por cento tinham desfeito o casamento, 71% tinham familiares alcoólatras e só 24% conseguiram chegar às Universidades. Consumiam em média 638,4 g de álcool por dia, destilados na grande maioria. Quase a totalidade deles já tinha tentado a abstinência ou tratamentos de desintoxicação, sem sucesso – o que bem evidencia o caráter crônico e incurável dessa doença. Essas pessoas são usuários freqüentes dos serviços de saúde e têm seguidas passagens pela polícia. Esse é, portanto, um grupo populacional bastante representativo de alcoolistas para um estudo de intervenção. Os pesquisadores ofereceram aos participantes do estudo uma dose de até 140 ml de vinho de hora em hora entre as 7 e 22 horas, durante os 7 dias da semana. Essa foi a única intervenção. Todos que entraram no estudo foram acompanhados por 5 a 24 meses. Os resultados foram impressionantes: o consumo médio de álcool por dia caiu para 116,2 g – uma redução de 5,5 vezes! Ainda diminuíram em 60% as passagens dessas pessoas pelos hospitais da cidade e em 50% os incidentes com a polícia. A totalidade abandonou o comportamento destrutivo, com melhora significativa na higiene, alimentação e qualidade do sono. A provável explicação para esses resultados vem da Drª Agnes Simnjonyi do Departamento de Bioquímica e Farmacologia da Universidade de Missouri – Columbia, que em um de seus estudos concluiu que “os polifenóis do vinho inibem alguns dos efeitos nocivos do álcool”. Essa medida não curou o alcoolismo dessas pessoas, nem mesmo reintegrou-as totalmente na sociedade, mas, sem dúvida alguma melhorou a qualidade de vida delas e diminuiu muito o custo social deste sério problema. PARA SABER MAIS: leia Podymow, T. et al. CMAJ 2006;174:45-49