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Vinho, Álcool e Alcoolismo

            O alcoolismo é um problema sério. Não só um problema médico, mas também social, familiar e trabalhista. Alguns países, sobretudo da Europa, estão enfrentando sérios problemas com os bebedores pesados. Assim são considerados os homens que bebem mais de 40 g de álcool (equivalente a 400 ml de vinho a 12,5 °GL) por dia e as mulheres que bebem mais de 20 g de álcool (equivalente a 200 ml de vinho a 12,5 °GL) por dia. Conforme documentos da Comunidade Européia, lá, 12% dos adultos se enquadram nessa categoria. No Brasil, de acordo com dados da Organização Mundial de Saúde, apenas 2,2% entre os adultos que tomam bebidas alcoólicas se enquadram como bebedores pesados. Esses números, embora relevantes, são menos significativos quando se consideram as principais causas de morte. A mortalidade devida ao consumo de álcool, segundo relatório da Organização Mundial de Saúde, é menos expressiva que as mortes causadas pela Pressão Arterial alta, consumo de cigarros, colesterol elevado, desnutrição, sexo não seguro, baixo consumo de vegetais, obesidade e até mesmo o sedentarismo.

De acordo a Organização Mundial de Saúde pessoas que bebem mais de 80 g de álcool (o equivalente a 800 ml de vinho a 12,5 °GL) por dia, depois de 10 anos terão, muito provavelmente, algum problema por isso. Parte significativa dos bebedores pesados terá problemas pelo uso abusivo do álcool; mas não todos. Isso é muito individual e depende de vários fatores como sexo, peso corporal, mais especificamente com o peso do fígado, quantidade de enzimas que metabolizam o álcool e constituição gênica de cada indivíduo.

Os documentos da Organização Mundial de Saúde, da Comunidade Européia e da Organização Pan-Americana de Saúde não fazem distinção entre os diferentes tipos de bebidas. Mas elas existem e são significativas. No Brasil, por exemplo, o consumo de álcool se dá 10 vezes mais na forma de cerveja e destilados do que de vinho3. Do mesmo modo que os analgésicos, as bebidas alcoólicas têm diferenças entre si. O Ácido Acetil-Salicílico (Aspirina®), a Dipirona (Novalgina®) e o Paracetamol (Tylenol®) são todos analgésicos, mas com metabolismo e para-efeitos diferentes. Do mesmo modo vinho, cerveja e destilados são todos bebidas alcoólicas, mas com comportamentos diferentes. Vários estudos na literatura científica mostram diferenças importantes entre benefícios e danos causados por vinho, cerveja e destilados. Comentarei alguns.

O Dr. Becker e colegas do Centro de Estudos Populacionais Prospectivos de  Copenhague, Dinamarca, avaliando 30.630 pessoas concluiu que, bebendo a mesma quantidade de álcool, os bebedores de vinho têm chance significativamente menor de desenvolver cirrose que os bebedores de cerveja e destilados.

O Dr. Groembaek e colegas do Instituto Nacional de Saúde Pública de Copenhague, Dinamarca, em análise de mais de 10.300 pessoas com hábito de ingerir bebidas alcoólicas, concluiu que: “os bebedores moderados de vinho têm menor risco de se tornarem bebedores abusivos e bebedores problema do que os que bebem cerveja e destilados e isso se reflete na morbi-mortalidade”.

O Dr. Smart e Dr. Walsh, com o objetivo de avaliar as diferentes bebidas alcoólicas no comportamento problema de adolescentes, analisaram os dados de 1.557 estudantes consumidores de bebidas alcoólicas que constavam nos dados do levantamento de usuários de drogas de Ontário, Canadá, no ano de 1991. Eles encontraram comportamento delinqüente apenas nos bebedores de cerveja e destilados. Mesmo assim quando consumiam mais que cinco doses por dia (o equivalente a mais de 40 g de álcool). Na opinião deles “o vinho parece ser a bebida da moderação”.

O mesmo Dr. Smart, em 1994, fez outro estudo interessante, que visava ver o impacto dos diferentes tipos de bebidas em bebedores pesados. Esse estudo incluiu 8.758 pessoas no Canadá. Ele concluiu que quem toma vinho sofre menos intoxicações pelo álcool e tem menos problemas pelo álcool que os que bebem cerveja e destilados, para quantidades equivalentes de álcool. Esses dados independiam do sexo, idade, quantidade e freqüência de ingesta. Ele ainda salienta que as pessoas que bebiam vinho o faziam geralmente com as refeições, o que torna mais fácil controlar o excesso de ingesta e diminui a concentração de álcool no sangue.

Esses achados motivaram o Dr. Smart a publicar em 1996 um novo estudo. Agora analisando o comportamento e as conseqüências sociais do consumo das diferentes bebidas alcoólicas. Ele chegou a algumas conclusões interessantes: destilado e cerveja causam mais problemas sociais e comportamentais que o vinho; Brandy, em mesmas doses de álcool, causa mais respostas agressivas e emocionais que a cerveja e o vinho; o consumo de destilados aumenta a concentração de álcool no sangue mais rápido que a cerveja; para uma mesma tarefa e uma mesma dose de álcool, a cerveja causa menos dano que o Brandy; os bebedores de cerveja foram mais sujeitos a problemas de trânsito. O pesquisador sugere que se façam mais estudos para comprovar os seus achados.

O Dr. Grunewald e colegas do Centro de Pesquisas de Prevenção, na Califórnia, analisaram as mortes por cirrose num período de 12 anos em 50 Estados dos Estados Unidos da América, considerando as diferentes bebidas alcoólicas. Eles encontram uma taxa aumentada de mortalidade por cirrose apenas para bebedores de destilados.

Outro estudo curioso foi desenvolvido pelo Dr. Bode e colegas da Universidade de Hohenheim, Stuttgart, Alemanha. Ele constatou que as pessoas que comem carne de porco e bebem cerveja têm aumentada a chance de desenvolver doença hepática pelo álcool. Por outro lado os que bebem vinho e comem carne de porco têm uma proteção para desenvolver esse tipo de doença.

O vinho se mostra, em estudos observacionais, como a bebida que menos causa problemas pelo álcool. A Drª Agnes Simnjonyi e colegas do Departamento de Bioquímica e Farmacologia da Universidade de Missouri, Columbia, USA, sugerem que essa proteção se deva ao

s polifenóis do vinho que inibem alguns dos efeitos danosos do álcool. Isso de certo modo foi confirmado pelo Dr. Sillanaukee e colegas da Escola de Medicina de Tempere, Finlândia. A dosagem de Transferrina com Deficiência de Carboidrato é um excelente marcador de dano orgânico pelo álcool. Esses pesquisadores estudaram pessoas divididas em quatro grupos. Um deles recebeu apenas água e foi o grupo controle. Os outros três grupos receberam vinho, cerveja e destilados numa dose equivalente a 40 g de álcool diários. No início e depois de 12 semanas todos tiveram dosada a sua Transferrina com Deficiência de Carboidrato. Ao final das 12 semanas o grupo que recebeu água teve valores inalterados; os grupos que receberam cerveja e destilados aumentaram e o grupo que recebeu vinho diminuiu! 

 

 

É certo que a ingesta abusiva de bebidas alcoólicas causa danos orgânicos, sociais, familiares e profissionais. E eles não valem a pena! Por isso é importante atentar aos alertas dos quadros deste texto.

Tão desaconselhável como recomendar bebidas alcoólicas para todas as pessoas é omitir que a ingesta leve e moderada, regular, junto com os alimentos, por quem não tenha contra-indicação ao consumo de álcool traz benefícios para a saúde. Do mesmo modo é importante considerar que as bebidas não são todas iguais (como os analgésicos!). Esta é uma questão que deve ser tratada com clareza, honestidade e sem paixões.

 

NOTA: Referências à disposição com o autor.