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Vinho, cérebro e memória

O vinho é uma bebida de muitos paradoxos. Um deles é sua ação sobre o cérebro e a memória.

É bem conhecido o efeito tóxico do álcool. Ele se dá principalmente sobre as células do fígado, coração e cérebro, comprometendo principalmente a memória. O mecanismo pelo qual isso acontece é a ação oxidante agressiva que o álcool exerce sobre essas células. O hipocampo é a parte do cérebro onde reside a memória e a primeira a sofrer os danos da oxidação pelos Radicais Livres.

Por outro lado, o vinho, que é uma bebida alcoólica (chega a ter até 150 gramas de álcool por litro), tem efeito protetor sobre o cérebro e estimula a memória, conforme mostram centenas de pesquisas científicas. Eis o paradoxo.

A explicação mais provável para isso, conforme o Prof. Manuel Paula-Barbosa, da Universidade do Porto, em Portugal, é que os polifenóis do vinho, por sua potente ação anti-oxidante, protegem os neurônios – células do cérebro e sistema nervoso – dos efeitos danosos do álcool. A sua opinião baseia-se em uma pesquisa que coordenou, onde foram observados 36 ratos divididos em 3 grupos. Todos os ratos receberam a mesma dieta. Um dos grupos recebeu água, outro uma solução alcoólica e outro vinho com concentração de álcool semelhante ao do grupo anterior. Ele só encontrou dano morfológico e funcional no hipocampo dos ratos que receberam a solução alcoólica.

Exatamente a mesma opinião que o Prof. Manuel Paula-Barbosa tem a Drª. Agnes Simonyi e colegas do Departamento de Bioquímica e Farmacologia da Universidade de Missouri, que lá realizaram estudos semelhantes.

Já em 1997 o Prof. Jean-Marc Orgogozo, da Universidade de Bordaux, França, constatou em estudo que as pessoas que bebem 250 a 500 ml de vinho por dia, nas refeições, têm 75% menos chance de desenvolver a Doença de Alzheimer. A esse estudo seguiram-se muitos outros que encontraram sempre um efeito neuroprotetor para vários tipos de demência em indivíduos que têm o hábito regular de beber vinho.

O Dr. Tredici e colegas da Universidade de Milão, Itália, também constataram que quem bebe vinho regularmente ativa uma enzima chamada Mapquinase que tem ação protetora para os neurônios e ativa as sinapses no hipocampo.

Trabalho feito na Itália e publicado na Nature mostrou que o hábito de degustar vinhos – avaliar aromas, gosto e retrogosto – estimula e desenvolve a memória.

Bacco, com seu divino saber, dotou o vinho de propriedades que preservam e estimulam a memória possivelmente para usufruirmos por mais tempo os bons momentos da vida e os prazeres do vinho. Mas isso só acontece se ele for bebido regular e moderadamente, junto com as refeições e quando não houver contra-indicações.

jairo@monson.med.br