Artigo

O Resveratrol em vinhos brasileiros

 

 

            Muitos dos consumidores, produtores e pesquisadores se preocupam com o teor de Resveratrol nos diferentes vinhos. Será que isso é tão relevante?

            Esta substância passou a despertar interesse desde o início de 1995 quando a equipe do Dr. John Pezzuto da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, atribuiu a ela efeitos muito favoráveis à saúde. Eles identificaram uma forte ação anticancerígena e preventiva de doenças cardiocirculatórias, decorrente de sua potente ação antioxidante, isto é, neutralizadora de Radicais Livres. Eles demonstraram que ela é capaz de bloquear tanto o surgimento como o crescimento e a disseminação dos cânceres. Mais tarde foi também demonstrado que ela aumenta a apoptose das células cancerígenas, isso quer dizer: a morte programada destas células. Na prevenção de doenças cardiocirculatórias foi demonstrado que elas são uma barreira à formação de placas de gorduras nas artérias (aterosclerose) e à agregação das plaquetas, evitando deste modo a trombose e a oclusão abrupta de um vaso sangüíneo, o que é trágico. É bastante compreensível tamanho interesse por esta magnífica substância, pois ela tem uma ação favorável justamente nos dois grupos de doenças que mais matam em todo o mundo – as cardiocirculatórias e os cânceres. Será que esta preocupação está correta?

O Resveratrol existe apenas no reino vegetal. Já foi encontrado em mais de 70 plantas e em quantidades significativas nas uvas. A sua função na planta é de defesa, principalmente do ataque de fungos, que serve como estímulo a sua produção. Ele é um Polifenol do grupo dos não Flavonóides e do sub-grupo dos Estilbenos. Durante a vinificação é extraído da uva principalmente (mas não exclusivamente) pela ação do álcool.

A sua presença nos vinhos é muito variável. Depende de muitos fatores como solo, umidade, quantidade de sol que a planta recebe (tanto pelo número de horas de sol como pela orientação solar), ataques de pragas, variedade da uva, técnicas de vinificação e até mesmo dos cuidados durante a guarda do vinho. O aumento da temperatura e a incidência de luz sobre o vinho transformam o Resveratrol da forma trans para cis, que parece não ter nenhuma atividade sobre a saúde. É por isso que vinhos da mesma variedade e produzidos pelo mesmo vinicultor, mas de diferentes safras têm diferentes quantias de Resveratrol. O mesmo ocorre com vinhos da mesma região e safra, mas de variedades diferentes; e de mesma variedade e safra, mas de região ou técnica de vinificação diferente. Até mesmo ao longo da existência de uma garrafa de vinho o seu teor de trans-Resveratrol varia – decresce. Será mesmo de valor conhecer o teor de Resveratrol dos vinhos?

Os vinhos brasileiros apresentam teores muitos altos de Resveratrol, conforme dados de estudos da Drª Regina Vanderlinde e do Dr. André A. Souto. Isto é até fácil de entender porque a grande parte desta produção provém da Serra Gaúcha, onde durante a vindima o clima costuma ser quente e úmido e, portanto favorável ao desenvolvimento de fungos – um forte estímulo para produção de Resveratrol pela planta. Geralmente o conteúdo desta importante substância está entre 1 e 7 mg por litro de vinho. Os franceses, os chilenos e os argentinos também apresentam dados com teores elevados de Resveratrol em alguns de seus vinhos. Mas será mesmo importante conhecer este dado?

O Resveratrol é apenas um astro numa constelação. Existem no vinho cerca de 200 diferentes Polifenóis. Todos eles com um potencial de ações benéficas para a saúde – alguns com um possível efeito até maior que o astro Resveratrol, como por exemplo, as Procianidinas e a Quercitina. Os Polifenóis apesar de serem os principais responsáveis pelas virtudes terapêuticas do vinho, não são os únicos. No vinho existem cerca de 1.000 substâncias conhecidas. Muitas delas com efeitos muito interessantes para o organismo como alguns eletrólitos, oligoelementos, aminoácidos (sobretudo a Lisina, a Fenilalanina, o Triptofânio e o Ácido Glutâmico, considerados aminoácidos essenciais – aqueles que são indispensáveis ao homem e o organismo não sabe produzir), proteínas, enzimas, vitaminas (principalmente as do Complexo B) e o álcool. O mais importante e interessante é que todos eles convivem numa harmonia esplendorosa no vinho, como não se vê em nenhuma outra bebida e em nenhum outro alimento. O Resveratrol é apenas um astro em uma constelação.

Certamente a quantia de Polifenóis totais e a capacidade antioxidante expressam melhor a relação de um determinado vinho com os benefícios para a saúde do que a dosagem de Resveratrol. É necessário ter claro que o vinho é muito mais que uma, duas ou poucas substâncias. Ele é um ser vivo e complexo (como as pessoas!) onde uma plêiade de compostos co-existem em uma perfeita harmonia. Atribuir a uma única substância os benefícios do vinho para a saúde é um erro que devemos evitar.

St. Leger é um importante cientista francês que muito contribui para o conhecimento médico. Entre outras coisas estuda e escreve muito sobre os efeitos da dieta, das bebidas alcoólicas e do vinho na saúde. Num artigo publicado em 1979 na importante revista médica Lancet ele, com muita inteligência e perspicácia, foi definitivo nesta questão. Ele escreveu: “Caso acredite-se que o vinho possui um ingrediente protetor contra doenças então devemos considerar quase um sacrilégio tentar isolar esta substância. O medicamento já se encontra pronto e em uma forma altamente palatável”.

 jairo@monson.med.br