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Vinho branco também é bom para o coração

            Os efeitos benéficos do vinho sobre o coração têm sido atribuídos exclusivamente ao vinho tinto. Será que é assim mesmo?

Quase todos os estudos nas últimas três décadas sobre a proteção conferida pelo consumo moderado de vinho contra as doenças cardiovasculares têm-se centrado na atividade do vinho tinto. Isso se deve ao fato dele ter alto teor de antioxidantes, especialmente polifenóis. Os estudos com vinho tinto são muitos e alguns bastante consistentes não deixando dúvidas quanto ao seu efeito cardioprotetor. Isso já não se discute mais.

            O potencial terapêutico dos polifenóis e de sua relação sinérgica com o álcool seduz os cientistas e desvia a atenção dos vinhos brancos. As técnicas de vinificação privam os brancos de quantidades mais expressivas de polifenóis. Por isso quase foram estigmatizados, inferiorizados e até perderam mercado. A eles restou apenas a constância de alguns consumidores fiéis. Os vinhos brancos carecem de polifenóis, mas contém outros compostos como ácidos hidroxicinâmicos (ácido caféico) e monofenóis (tirosol), que também são reconhecidos pelas suas propriedades antioxidantes. Este é um potencial terapêutico a ser explorado.

            Pesquisadores do Laboratório de Angiogenise e Cardiologia Molecular da Universidade de Connecticut, Farmington, nos Estados Unidos da América junto com colegas do Departamento de Morfologia Humana da Universidade de Milão, na Itália e do Departamento de Cirurgia Torácica, da Escola de Medicina de Harvard, em Boston, também nos Estados Unidos da América, resolveram estudar se o vinho branco teria algum efeito na isquemia (diminuição ou falta de sangue) do miocárdio (músculo cardíaco) e na sua reperfusão (retorno da circulação).

            Estes cientistas fizeram um estudo com ratos. Os animais foram divididos em quatro grupos: um controle; um que recebia vinho branco; outro que sofria isquemia e reperfusão e um último que sofria isquemia e reperfusão, mas também recebia vinho branco. A isquemia foi feita por oclusão da artéria descendente anterior, o principal ramo da coronária esquerda e a reperfusão foi feita em 4, 8 horas e 30 dias após. Os vários parâmetros analisados foram melhores nos ratos que receberam vinho branco. Nesse grupo de animais o músculo cardíaco infartado se recuperava melhor e não ocorria a remodelação pós infarto do miocárdio – uma seqüela nefasta desse evento. Os cientistas conseguiram demonstrar o mecanismo pelo qual houve esta extraordinária proteção: é a ativação de uma importante via de sobrevivência (a saber: a Akt/FOXO3a/eNOS).

            Este estudo foi o pioneiro em mostrar o efeito cardioprotetor do vinho branco. Mas tão, ou talvez mais importante que isso, tenha nos mostrado que, possivelmente, os vinhos brancos são apenas pouco estudados e não desprovidos de efeitos sobre a saúde. É bem possível que as diferenças entre vinhos brancos e tintos estejam mais na cor do que nos seus efeitos.

 

jairo@monson.med.br